segunda-feira, 25 de abril de 2011

Coisa de Português

Interrompemos essa breve/longa pausa para falar de um assunto extraordinário.
Estava eu eu eu lendo um livro enquanto esperava o funcionário de uma repartição pública chegar para que eu pudesse pegar meu registro profissional (de jornalista, para o qual eu estudei quatro anos e meio, mas a senhora que me atendeu - o outro profissional não chegou - disse-me algo óbvio para o qual eu não havia atentado - tenho deficiência para as coisas óbvias: qualquer um pode ter um registro profissional de jornalista, ainda que seja iletrado).
Estava eu lendo esse livro, quando chegou um casal e sentou ao meu lado. Ela, grávida. Ele, mais perto de mim. Comentou algo do horário etc. Uma bolsa de bebê, numa cadeira vazia, nos separava. Ele olhava meio curioso, depois de uma pausa, depois do breve bate-papo, do qual sai para cair novamente no livro. A pergunta: "vc é mulçumano?" (olhar curioso, mais para simpático). Eu achei engraçado: "nããão... por causa da barba, né?", disse, pegando em minhas já bem proeminentes madeixas de bochecas. "E o livro, escrito Cairo", ele completou. Era verdade. Tem Cairo escrito no fundo da capa do livro. Mas há também uma foto de Napoleão e um passarinho pequeno com corpo de gente. Mas ele chegou à conclusão de que eu seria um provável mulçumano. É claro, tá cheio deles por aí. Barbudos e planejando ataques a criancinhas. Ou sonhando no dia que explodirá e terá seus zilhões de pedacinhos catados pelas boquinhas vermelhas de 40 virgens. O engraçado, no entanto, é que ele não parecia ter me olhado com medo ou desprezo. Era um olhar mesmo de simpatizante. Talvez ainda haja esperança para os árabes mulçumanos. Talvez ainda haja uma galera que consiga separar sua idéia das palavras assassinos etc. Ainda que os identifique pelas barbas (e Cairo, uma forte evidêndia). Talvez ainda tenha gente que resolva resolver a suspeita com uma pesquisa, e descobrir que se escreve muçuLmano, e não com o L depois do mu - leia atrás e verá. Afinal de contas, nem todo muçulmano é o muçulmano da TV. A TV é uma caixinha que recorta a realidade pra deixar ela mais facinha (e erradinha, na maioria das vezes). Ou talvez seja tudo isso besteira minha, essa coisa de caça aos islâmicos. E se eu tivesse só de bigode + a camisa do Vasco que eu vestia, ele perguntaria: "vc é português?". Ele é que era um perguntador nato, com aquele olhar curioso retado.


PS.: A TV e os jornais, de um modo geral.

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